Um diagnóstico clínico e por exclusão: a jornada da UCE (Urticária Crônica Espontânea)

22/03/2016

Um diagnóstico clínico e por exclusão: a jornada da UCE (Urticária Crônica Espontânea)

“Será que eu tenho?”

“Quando eu vou saber?”

“O que mais poderia ser?”

“Quantos exames mais eu terei que fazer?”

Se você foi diagnosticado com urticária crônica espontânea (UCE) você já deve ter se feito algumas dessas perguntas. E o mais frustrante, é que nem sempre as respostas são imediatas.

Mas por quê? Na verdade, ao contrário de boa parte das doenças, não há um exame único capaz de dizer de forma definitiva se você tem (ou não) urticária crônica. Por isso, normalmente, o diagnóstico é feito a partir da anamnese (avaliação do histórico de saúde do paciente e de seus familiares) e da exclusão de outras doenças, como vasculites, doenças autoinflamatórias, angioedema adquirido ou hereditário e angioedema induzido por inibidores da ECA.1

A anamnese é baseada no relato dos sinais e sintomas pelo paciente e na análise do médico, o que leva ao chamado diagnóstico clínico. Para isso, o ideal é que você relate ao médico todos os sinais e sintomas e a duração de cada um, além do seu histórico de saúde. O médico, por sua vez, vai analisar aspectos como o tamanho e a cor das placas na pele (urticas), se há prurido (coceira), angioedema, etc.2

A natureza da UCE (Urticária Crônica Espontânea)

Parte da resposta está contida no nome da doença. Se você já pesquisou sobre a origem da urticária crônica espontânea, você provavelmente já percebeu que ela também é chamada de “urticária crônica idiopática” (UCI). É a mesma doença, são apenas jeitos diferentes de se referir a ela.3 O significado da palavra idiopática é, na verdade, “causa de doença espontânea ou desconhecida.”4

Justamente por isso, o diagnóstico da UCE (Urticária Crônica Espontânea) pode ser desafiador, já que não há uma causa externa para esta doença, e muito menos para suas crises.

A jornada até o diagnóstico da UCE (Urticária Crônica Espontânea)

Como já se era de imaginar, não existe um exame mágico para identificar a UCE (Urticária Crônica Espontânea)a. Estudos recentes demostraram que testes laboratoriais de rotina não ajudam no diagnóstico da UCE, mas podem auxiliar o médico a descartar outras doenças,5 como neoplasias e infecções. O único jeito de identificar se uma pessoa tem urticária crônica espontânea é descartando a existência destas outras doenças. Por isso, quando você visitar o médico, lembre-se de relatar caso haja um histórico com as placas da urticária (também chamadas de urticas, em alto relevo, que coçam e podem variar na forma, tamanho e coloração).1 Este histórico adequado pode ajudar (e muito) no diagnóstico correto da UCE.

A primeira coisa que os médicos vão investigar são as alergias. Isso porque, a manifestação da UCE (Urticária Crônica Espontânea) geralmente parece com a de uma alergia. A causa de uma alergia é a resposta exacerbada do nosso sistema imunológico a um agente normalmente inofensivo. Essa resposta leva à ativação dos mastócitos, um tipo de célula presente no nosso organismo, inclusive na nossa pele. Quando os mastócitos liberam alguns mediadores químicos, estes geram uma reação inflamatória que causa placas com coceira na pele – como as placas da urticária.6

Porém, na UCE (Urticária Crônica Espontânea), não há o contato com nenhum agente conhecido, pois como o próprio nome diz, ela é espontânea. E a incapacidade de identificar a causa, muitas vezes, leva médicos e pacientes a se preocuparem com o fato de que alguma outra doença subjacente possa estar em jogo. Isso se traduz em mais e longos exames desnecessários (testes físicos, exames de sangue, testes de alergia e testes para outras doenças), além de poder desencorajar os pacientes!5

E por mais desanimador que tudo isso possa parecer, há uma luz no fim do túnel quando se trata da UCE (Urticária Crônica Espontânea). Na verdade, existem ferramentas criadas para acompanhar a atividade da doença e permitir avaliar seu impacto na vida dos pacientes, incluindo o Escore de Avaliação da Urticária Semanal (UAS7) e o Questionário de Qualidade de Vida na Dermatologia (DLQI ), por exemplo!6

Após a identificação da urticária, há dois passos seguintes essenciais para complementar o diagnóstico e escolher a melhor opção de tratamento: saber se a urticária é crônica ou aguda; e se é induzida ou espontânea. Entenda:

 

    • Urticária crônica: a urticária é caracterizada crônica quando os sintomas duram por mais de seis semanas.1
    • Urticária aguda: se a crise de urticária desaparecer em menos de seis semanas, ela é classificada como aguda.1
    • Urticária induzida: é aquela que é desencadeada por um fator externo identificável (calor, frio, pressão, vibração, entre outros), ou seja, quando se sabe qual a causa, o que está induzindo a manifestação dos sintomas.1
    • Urticária espontânea: neste caso, não há um fator externo responsável pelo desencadeamento da doença.4,7-8

A doença pode ser definida como UCE (Urticária Crônica Espontânea) ou urticária aguda e induzida, por exemplo.

Então, para que se preocupar?

Essa é a pergunta que muitos pacientes se fazem enquanto se submetem a um processo de meses entre exames e expectativas, em busca de um diagnóstico. A resposta é que apenas ao diagnosticar adequadamente a sua doença é que será possível trabalhar para controlá-la. A boa notícia é que 92% das pessoas com UCE conseguem viver sem nenhum sinal ou sintoma doença quando recebem o tratamento adequado.7

Por isso, se você está passando por esse processo em busca do diagnóstico, tenha força, conhecer exatamente qual é a sua condição para poder trata-la adequadamente vai valer a pena!


Referências

1. Zuberbier T, Aberer W, Asero R et al. The EAACI/GA²LEN/EDF/WAO Guideline for the Definition, Classification, Diagnosis and Management of Urticaria. The 2017 Revision and Update. Allergy. 2018 Jan 15.
2. Criado RFJ et al. Urticárias. Rev. bras. alerg. imunopatol. – Vol. 28, Nº 6, 2005. Disponível em: http://www.sbai.org.br/revistas/Vol286/urticarias.pdf Último acesso em 22 de fevereiro de 2016.
3. Maurer M et al. Unmet clinical needs in chronic spontaneous urticaria. A GA2LEN task force report. Allergy. 2011 Mar;66(3):317-30.
4. Merriam Webster. Definition of idiopathic. Disponível em http://www.merriam-webster.com/dictionary/idiopathic. Último acesso em 16 de outubro de 2015.
5. Kozel MMA et al. The Effectiveness of a History-Based Diagnostic Approach in Chronic Urticaria and Angioedema. Arch Dermatol. 1998;134(12):1575-1580.
6. Allergy UK. What is an allergy? Disponível em http://www.allergyuk.org/what-is-an-allergy/what-is-an-allergy. Último acesso em 19 de outubro de 2015.
7. Kaplan AP. Therapy of chronic urticaria: a simple, modern approach. Ann Allergy Asthma Immunol. 2014 May;112(5):419-25.

Veja mais em: Viva sua pele

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