Entrevista: Dr. Flavio Sztajnbok tira as principais dúvidas sobre febre recorrente e a síndrome da Hiper IgD

Entrevista: Dr. Flavio Sztajnbok tira as principais dúvidas sobre febre recorrente e a síndrome da Hiper IgD

11/02/2018

Entrevista: Dr. Flavio Sztajnbok tira as principais dúvidas sobre febre recorrente e a síndrome da Hiper IgD

1. Em qual idade a síndrome da hiperimunoglobulinemia D ou Hiper IgD costuma se manifestar?

A síndrome da hiperimunoglobulinemia D (também conhecida como Hiper IgD ou deficiência de mevalonato quinase) é uma doença autoinflamatória em que as primeiras manifestações clínicas se iniciam antes do segundo ano de vida, em mais de 90% dos casos.1 Um estudo recente do grupo europeu Eurofever, que tem um banco de dados sobre diversas doenças autoinflamatórias, mostrou que a idade média de surgimentos dos primeiros sinais e sintomas é por volta dos 6 meses de idade, mas eles podem ocorrer ainda mais cedo.1,2

2. Quais são os sinais e sintomas mais característicos da doença, que podem contribuir com o diagnóstico correto?

A síndrome da Hiper IgD se caracteriza pelo surgimento de febre e outros sintomas geralmente nos primeiros meses de vida. Alguma vezes, seu início está relacionado a algum tipo de estrese como infecção, trauma ou imunização, mas devemos lembrar que vacinas são muito importantes para prevenir muitas doenças mais ou menos graves em crianças, e que são importantes mecanismos de proteção. A mutação genética que leva à manifestação da doença leva a uma diminuição da atividade de uma enzima conhecida como mevalonato quinase, e a Hiper IgD surge quando essa atividade da enzima cai a valores que variam de 1 a 10% do normal.3,4

A febre é alta e pode ser acompanhada de calafrios, dura de 3 a 7 dias e reaparece a cada 4 a 8 semanas, podendo em alguns casos ocorrer mais de uma vez por mês.5 Na maioria das vezes, os episódios febris vêm acompanhados de aftas ou úlceras orais (mais raramente também na região genital), dor abdominal, vômitos, diarreia, lesões cutâneas e dor nas articulações. As lesões cutâneas podem ser de vários tipos (papulares, urticariformes, nodulares e até semelhantes a vasculites) e a dor articular pode ser acompanhada de inflamação das articulações, mas não há deformidade.

Frequentemente as crianças apresentam linfonodos aumentados e dolorosos na região cervical (pescoço) e o exame físico pelo médico mostra a presença de aumento no tamanho do fígado e do baço. Por tudo isso, na maioria das vezes, as crianças com Hiper IgD apresentam atraso no desenvolvimento pôndero-estatural (que envolve peso, comprimento/altura e perímetro cefálico).

3. Qual a relação da amiloidose com a Hiper IgD?

A amiloidose é uma complicação que pode acontecer em processos inflamatórios crônicos e se caracteriza pelo acúmulo anormal de proteínas em diversos órgãos, como coração, rins, fígado, baço, trato digestivo e sistema nervoso, prejudicando o funcionamento deles. Essas proteínas são produzidas em processos inflamatórios prolongados, sem controle da atividade de doença. Assim, o surgimento dessa complicação está associado, principalmente, ao diagnóstico e tratamento tardios da Hiper IgD, bem como à falta de controle da atividade inflamatória da doença.

4. É verdade que a Hiper IgD é obrigatoriamente herdada tanto do pai quanto da mãe do paciente?

A síndrome de Hiper IgD é uma doença herdada geneticamente. A transmissão é autossômica recessiva, o que significa que ambos os sexos podem ser atingidos em proporção semelhante e que a pessoa doente herdou um gene recessivo de cada progenitor. Não há necessidade de que os pais sejam afetados pela doença. Na verdade, na grande maioria das vezes, o que ocorre é que os pais são assintomáticos e cada um deles porta um gene recessivo que, quando se juntam, levam a que o filho daquela gestação vá desenvolver a doença.

5. Em linhas gerais, como se pode melhorar a qualidade de vida dos pacientes?

A qualidade de vida dos pacientes, basicamente, está relacionada ao controle da atividade inflamatória da doença que leva aos sinais e sintomas descritos anteriormente e que, se não controlados, vão levar ao mau funcionamento de vários órgãos do corpo e ao surgimento de complicações como a amiloidose, acima descrita.

Obviamente, tudo começa por um diagnóstico precoce, ou seja, quanto mais cedo ocorrer o diagnóstico, e mais cedo o tratamento adequado for iniciado, melhores as chances do controle da doença, garantindo uma melhor qualidade de vida.

O reconhecimento dos sintomas anteriormente descritos, principalmente quando surgem nos primeiros meses de vida e são recorrentes, deve levar à procura do pediatra e especialistas capazes não só de diagnosticar a doença como, também, afastar diagnósticos de outras doenças que têm manifestações clínicas e laboratoriais semelhantes à Hiper IgD. Algumas doenças infecciosas, doenças metabólicas, doenças associadas a alterações de imunidade (excesso ou falta), neoplasias e até mesmo outras doenças de causa autoinflamatória podem apresentar um quadro semelhante.

Uma vez realizado o diagnóstico de certeza, baseado na história do paciente, exame físico, exames laboratoriais e, se possível mas não imprescindível, a confirmação da mutação genética, o início do tratamento adequado possibilita o controle das principais manifestações clínicas e alterações laboratoriais e, com isso, garantir que a criança volte a crescer, ganhar peso e ter uma melhor qualidade de vida, sem precisar de internações desnecessárias e medicações não indicadas para o tratamento de sua doença real.

Dr. Flavio Roberto Sztajnbok é reumatologista pediatrico no Rio de Janeiro e Professor do Departamento de Pediatria da Faculdade de Medicina da UFRJ. CRM RJ-419059

Conheça os médicos e saiba mais.


Referências

1. Florkin B, Cuisset L, Acquaviva-Bourdain C, et al. Mevalonate kinase deficiency (MKD): long-term follow-up of clinical and biological features in 40 patients. Pediatric Rheumatology Online Journal. 2008;6(Suppl 1):P195. doi:10.1186/1546-0096-6-S1-P195.
2. DermNet New Zealand. Hyperimmunoglobulinaemia D with periodic fever syndrome. Disponível em: https://www.dermnetnz.org/topics/hyperimmunoglobulinaemia-d-with-periodic-fever-syndrome/ Acesso em dezembro de 2017.
3. Dorothea Haas, Georg F Hoffmann. Mevalonate kinase deficiencies: from mevalonic aciduria to hyperimmunoglobulinemia D syndrome. Orphanet Journal of Rare Diseases20061:13.
4. Georg F. Hoffmann, et al. Clinical and Biochemical Phenotype in 11 Patients With Mevalonic Aciduria. Pediatrics. May 1993, VOLUME 91 / ISSUE 5.
5. Korppi M, et al. Acta Paediatrica. 2011;100:21-25.