7 coisas que você precisa saber sobre a febre familiar do mediterrâneo, por Dr. Leonardo Oliveira Mendonça

7  coisas que você precisa saber sobre a febre familiar do mediterrâneo, por Dr. Leonardo Oliveira Mendonça

11/02/2018

7 coisas que você precisa saber sobre a febre familiar do mediterrâneo, por Dr. Leonardo Oliveira Mendonça

Pode ser muito desafiador receber o diagnóstico de uma doença que você nunca ouviu falar ou não conhece ninguém que a tenha. Geralmente é isso com acontece com quem está em busca da confirmação ou acaba de receber o diagnóstico da febre familiar do mediterrâneo (FFM).

A febre familiar do mediterrâneo é uma doença rara1 e, por isso, nem sempre é fácil encontrar informações de qualidade e apoio para lidar com ela. Com a ajuda do Dr. Leonardo Oliveira Mendonça, alergista e imunologista no Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo, reunimos aqui 7 informações fundamentais sobre a doença, para que você a conheça melhor e possa ter mais segurança para lutar contra ela, uma vez diagnosticado corretamente!

Vamos lá!

1. O que é febre familiar do mediterrâneo?

A febre familiar do mediterrâneo (FFM) é uma doença rara, genética de herança autossómica recessiva. Isso significa que para ser afetado, o paciente necessariamente herda a mutação genética tanto do pai quanto da mãe. Os pais de uma pessoa com FFM geralmente carregam o gene mutado, mas não manifestam os sintomas da doença e, por isso, são chamados de portadores. A FFM se caracteriza por mutações no cromossomo 16, no gene chamado MEFV (mediterranean fever),2 responsável pela produção de uma proteína chamada pirina ou marenostrun. A FFM é uma doença autoinflamatoria e não autoimune.

2. Quais os sintomas da febre familiar do mediterrâneo?

A febre familiar do mediterrâneo (FFM) se manifesta geralmente antes dos 20 anos de idade, mas já foi descrita em pacientes após os 40 anos.3 O sintoma que mais chama atenção é a febre recorrente. Geralmente são febres que duram em média de 1 a 3 dias, acompanhadas ou não de outros sintomas.4 A dor abdominal no lado direito da barriga é um dos sintomas que acompanha a febre e costuma ser intenso, como uma apendicite. Outro sintoma que costuma ocorrer é dor torácica que tende a tipo pleurítica, ou seja, piora quando a pessoa inspira. Também é muito comum numa crise febril e a dor articular, que pode ser leve, ou até intensa, e acompanhada de inchaço e vermelhidão. Podem ocorrer manchas na pele, sendo a mais comum localizada no tornozelo (parece uma erisipela, ou infecção na pele). Outros sintomas podem acontecer em menor frequência, como pericardite (inflamação da camada que envolve o coração); orquite (inflamação do saco escrotal); e manchas do tipo púrpura de Henoch-Shoenlein.

3. Quem está sob mais risco de desenvolver a febre familiar do mediterrâneo?

A FFM tem frequência mais elevada em alguns indivíduos de origem mediterrânea, principalmente árabes, judeus, turcos e armênios. A real prevalência da doença no mundo não e conhecida, pois pode variar de pais para pais. Segundo a rede ORPHA, a prevalência é de 1 a 5 a cada 10.000 indivíduos.1 No Brasil, até o momento, não sabemos a real prevalência da febre familiar do mediterrâneo.

4. Como e feito o diagnóstico de febre familiar do mediterrâneo?

O diagnóstico da febre familiar do mediterrâneo requer 3 passos:

     1. Manifestações clínicas: o primeiro passo para o diagnóstico da febre familiar do mediterrâneo é a caracterização clínica da doença. Este passo deve ser feito por um médico experiente. Inicialmente, deve-se excluir qualquer outra causa que possa levar a tais sintomas. Depois disso, é necessário preencher alguns critérios mínimos já bem estabelecidos.

     2. Comprovação laboratorial da inflamação: o segundo passo é comprovar que houve inflamação sistêmica em uma crise, com aumento de marcadores agudos de inflamação. Para isso, é sugerido que durante uma crise e fora dela sejam feitas dosagens de hemograma, PCR e VHS. Na crise de FFM, espera-se aumento dos números dos leucócitos, aumento do número de neutrófilos, aumento de PCR e VHS. Fora da crise estes valores tendem a se normalizar ou a abaixar consideravelmente.

     3. Achados genéticos: o último passo fundamental para o diagnóstico da FFM é a análise e a interpretação genética. A análise genética pode ser feita por meio de vários métodos para procurar mutações nas partes funcionalmente ativas (exons) ou inativas (introns) do gene MEFV. Já foram descritas mutações em todos os exons deste gene e também em alguns introns, mas os exons mais comummente afetados são 2, 3, 5 e 10.2 Para confirmação genética é necessário encontrar duas mutações, habitualmente caracterizadas como patogênicas (capazes de produzir uma doença ou dano no organismo). Contudo, grande parte dos pacientes preenche os critérios clínicos e laboratoriais, mas não possui mutações ou possui apenas uma mutação no gene MEFV.

5. Quais os desafios do diagnóstico por exclusão?

A febre familiar do mediterrâneo pertence a um grupo de doenças chamadas de febres inflamatórias recorrentes hereditárias. Estas doenças têm origem genética e se manifestam com febre recorrente e outros sintomas muito semelhantes ao da febre familiar do mediterrâneo – e justamente por isso exigem diagnóstico diferencial.

A febre recorrente mais comum é a febre recorrente com aftas orais, adenite cervical e faringite (PFAPA), que tem início na infância, com períodos regulares de febre (geralmente os pais sabem o dia certo da próxima febre), e que não tem origem genética. Outras doenças semelhantes e que devem ser investigadas são:

6. Como a febre familiar do mediterrâneo pode afetar a vida do paciente?

O primeiro prejuízo enfrentado pelos pacientes e a luta pelo diagnóstico correto, uma vez que esse caminho é difícil e o diagnóstico é feito por exclusão. Nos períodos de febre, os pacientes não conseguem exercer suas atividades habituais: crianças não vão para a escola e adultos faltam no trabalho. Quando subtratada ou não tratada corretamente, a cada surto inflamatório ocorre a formação e o depósito de uma proteína de alto peso molecular, chamada de amiloide, que se acumula em vários tecidos, levando ao quadro de amiloidose. A amiloidose é uma grave complicação da FFM, que pode levar a morte.

7. Como é o tratamento da febre familiar do mediterrâneo?

O tratamento da febre familiar do mediterrâneo (FFM) é feito com base no bloqueio da atividade da proteína chamada pirina. O tratamento inclui corticoides, embora seu uso prolongado seja evitado por conta dos efeitos colaterais desta medicação. Existem outros tratamentos usados para prevenir as crises, incluindo opções que podem trazer controle completo da FFM, grande qualidade de vida e reversão da amiloidose.

Dr. Leonardo Oliveira Mendonça é alergista e imunologista no Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo CRM 157.667

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Referências

1. Orphanet. Familial Mediterranean fever. Disponível em: http://www.orpha.net/consor/www/cgi-bin/OC_Exp.php?lng=EN&Expert=342 Acesso em dezembro de 2017.
2. E Fragouli, et al. Familial Mediterranean Fever in Crete: a genetic and structural biological approach in a population of ‘intermediate risk’. Clinical G enetics. Volume 73, Issue 2. February 2008. Pages 152–159.
3. M. Sayarlioglu, et al. Characteristics of patients with adult-onset familial Mediterranean fever in Turkey: analysis of 401 cases. The International Journal of Clinical Practice. Volume 59, Issue 2 February 2005 Pages 202–205.
4. Sarı İ, Birlik M, Kasifoğlu T. Familial Mediterranean fever: An updated review. European Journal of Rheumatology. 2014;1(1):21-33. doi:10.5152/eurjrheum.2014.006.